No futuro distópico que acompanhamos no livro 1984, de George Orwell, entre os muitos crimes catalogados pelo Estado totalitário, destaca-se o pensamento-crime.

Lá, o Estado determina o que é a verdade, e ousar refletir fora desses limites é um ato criminoso. Existe até uma polícia dedicada exclusivamente a monitorar a mente dos cidadãos: a Polícia do Pensamento.

Sim, é uma obra de ficção. Em teoria, vivemos em uma sociedade onde você pode pensar livremente sem o risco de ser preso por isso.

Ou será que não?

De uns tempos para cá, tenho participado mais ativamente do Reddit e percebi que, em certos subreddits, o ato de pensar é recebido quase como uma ofensa pessoal.

A Menoridade

Existe um ensaio de Immanuel Kant chamado “Resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento?”. Nele, o filósofo define conceitos fundamentais para compreendermos a importância do pensamento autônomo.

Ele começa:

Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado.

A menoridade é a incapacidade de fazer uso do seu entendimento sem a direção de outro.

Kant identifica que a preguiça e a covardia são as razões pelas quais boa parte das pessoas prefere permanecer nesse estado de submissão intelectual por toda a vida.

É tão confortável ser menor. Se tenho um livro que faz as vezes do meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, etc., então não preciso me esforçar.

Não tenho necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar; […]

O Exercício do Pensar

Já mencionei anteriormente que pensar é um exercício que deve ser praticado, embora seja árduo.

Pensar é navegar pelo desconhecido. Você utiliza suas ferramentas e conhecimentos prévios, mas não há um mapa garantido. O que você encontra no fim do processo é fruto do seu esforço intelectual.

Acredito que parte da resistência das pessoas frente a um pensamento alheio venha da desconsideração de quão importante é a experiência de quem reflete.

Perceba: Kant não formulou a ideia de Esclarecimento do nada. Ele viveu em um contexto específico, leu outros autores, observou o mundo e, a partir dessa vivência, chegou às suas conclusões.

Para trazer o debate para algo mais próximo da nossa área, cito um dos melhores livros sobre engenharia de software: The Mythical Man-Month: Essays on Software Engineering, do saudoso Fred Brooks.

O livro é inteiramente construído sobre a experiência de Brooks na IBM liderando o OS/360. Suas reflexões ecoam até hoje porque, infelizmente, continuamos cometendo os mesmos erros que ele apontou em 1975.

O ato de pensar leva a uma posição formada a partir da experiência, do conhecimento e da observação direta.

A Aversão ao Pensamento

Um dos primeiros artigos em que senti essa aversão coletiva ao pensamento foi Ninguém te deve uma carreira.

Após ler So Good They Can’t Ignore You, do Cal Newport, tirei conclusões sobre a jornada de um programador. Eram conclusões quase óbvias: qualquer ciclo de aprendizado segue uma curva em “S”.

Se você analisar sua própria trajetória, chegará a essa mesma dedução trivial.

O comentário que recebi foi:

“Muita afirmação e nenhum dado. Viés de confirmação total no seu artigo, você criou uma explicação para um dado que não existe.”

Mas é óbvio. O texto é, literalmente, um ENSAIO. A palavra em inglês é essay, a mesma usada por Fred Brooks.

Essay deriva do francês antigo essayer, que significa “tentar” ou “experimentar”. Escrever um ensaio é justamente propor uma conclusão e apresentar a argumentação que a sustenta.

Alguém pode discordar dos argumentos, mas invalidar o pensamento apenas porque “não é um dado estatístico” ou porque “é apenas sua opinião” é o auge da inépcia.

O caso que mais me chamou a atenção, porém, ocorreu após o artigo A crise do software, 50 anos depois.

Refletindo sobre a revolução da IA generativa, lembrei do famoso discurso de Dijkstra sobre a crise do software. Na época, ele elencou dois motivos principais:

  1. A complexidade das novas máquinas (que traziam interrupções de I/O e níveis de armazenamento hierárquicos).
  2. A ambição da sociedade em querer sistemas cada vez mais complexos, como consequencia de máquinas mais poderosas.

O comentário que recebi foi:

“O 1 está completamente errado e o 2 é opinião.”

É inacreditável.

O sujeito desconsidera completamente o contexto histórico do discurso de Dijkstra, onde a profissão de programador mal existia e as máquinas eram radicalmente diferentes.

Sim, a transição das máquinas pra I/O e hierarquia de memória trouxe uma complexidade que antes não existia.

E sim, é a opinião de Dijkstra. Ele refletiu sobre algo que viveu e chegou a uma conclusão. Ora mas que absurdo. Como assim ele PENSOU?!

É a opinião dele e essa opinião vale muito mais que a sua e a minha juntas.

Mas quero que observe que todos que citei aqui: Kant, Brooks e Dijkstra, são pensadores. Todos contribuíram com suas reflexões para o avanço do conhecimento humano em suas respectivas áreas.

Conclusão

Se o esforço de pensar é exaustivo demais para você, não há problema. Você não é obrigado a pensar. Você pode seguir sua vida apenas ruminando e reproduzindo o que os outros mastigaram primeiro, sem nunca tirar uma conclusão própria sequer.

Mas, por favor, não tente policiar ou desqualificar o pensamento alheio apenas porque você escolheu o conforto da menoridade.